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O SUS pode pagar sem depositar: o que hospitais precisam entender antes de aderir ao Agora Tem Especialistas

  • Foto do escritor: Ricardo Polaro
    Ricardo Polaro
  • 27 de jul.
  • 6 min de leitura

Como transformar créditos tributários em valor real — sem comprometer margem, caixa e capital de giro


Tempo de leitura: 9 minutos



Resumo executivo



Nos últimos meses, tenho recebido cada vez mais gestores de hospitais e clínicas me perguntando sobre o Agora Tem Especialistas. E entendo o motivo: o programa abre uma frente nova e pouco discutida na relação entre o SUS e a rede privada.


Além de ampliar a participação de hospitais privados na redução das filas por consultas, exames e cirurgias, o programa permite converter atendimentos realizados em créditos financeiros, que podem ser usados para abater tributos federais e negociações tributárias em aberto, conforme as regras da Receita Federal e do Ministério da Saúde.


À primeira vista, parece uma oportunidade e tanto.


Mas, como consultor que acompanha de perto o caixa de operações de saúde, preciso ser direto com você: existe um detalhe que pode decidir se essa adesão fortalece ou fragiliza financeiramente o seu hospital.


Você pode prestar o serviço, consumir caixa imediatamente e não ver esse valor entrar como dinheiro na conta.


O benefício acontece por meio da redução de tributos federais, não necessariamente por um depósito bancário. E é exatamente nesse ponto que vejo gestores confundindo benefício tributário com geração de caixa.


Neste artigo, mostro como o programa funciona, onde estão as oportunidades reais, quais riscos financeiros merecem sua atenção e como calcular se a adesão realmente cria valor para a sua instituição.



O novo cenário da saúde privada


A pressão sobre o sistema público de saúde só cresceu nos últimos anos. Filas para consultas especializadas, exames e cirurgias eletivas viraram um desafio nacional, enquanto muitos hospitais privados convivem com capacidade instalada parcialmente ociosa.


O Agora Tem Especialistas nasce para aproximar essas duas pontas: usar a estrutura da rede privada para ampliar o acesso da população a serviços especializados.


Mas, do ponto de vista de gestão, a pergunta que mais importa não é "existe demanda?".


A pergunta que eu faço para todo cliente que me procura sobre isso é: essa demanda gera valor financeiro sustentável para a sua instituição?


O que é o Agora Tem Especialistas?


É uma iniciativa do Governo Federal, instituída pela Medida Provisória nº 1.301/2025, criada para ampliar o acesso da população a consultas, exames, procedimentos diagnósticos e cirurgias especializadas pelo SUS.


Entre os objetivos declarados do programa estão:


  • reduzir filas de espera;

  • ampliar a oferta de atendimento especializado;

  • utilizar a capacidade instalada da rede privada;

  • acelerar o acesso a especialistas;

  • aumentar a eficiência do sistema de saúde.


Hospitais privados podem participar conforme as modalidades definidas pelo Ministério da Saúde e pela Receita Federal.


O que realmente muda com o programa


O ponto mais inovador não está apenas na ampliação da participação privada, está no modelo de remuneração.


Em determinadas modalidades, estabelecimentos hospitalares privados podem converter parte dos atendimentos realizados em créditos financeiros certificados pelo Ministério da Saúde, utilizáveis para abater dívidas tributárias com a União ou compensar tributos futuros administrados pela Receita Federal.


Ou seja: parte da sua remuneração pode acontecer por meio da redução de obrigações tributárias, não por transferência bancária.


Isso muda completamente a forma como você e seu consultor/equipe devem analisar esses contratos.


O SUS pode pagar sem depositar


Este é, na minha visão, o conceito mais importante de todo o programa.


Imagine que seu hospital realize centenas de procedimentos dentro das regras do Agora Tem Especialistas. Depois que a produção é registrada, auditada e validada, o Ministério da Saúde emite um certificado correspondente aos créditos gerados que você então apresenta à Receita Federal ou à PGFN para abater débitos tributários.


Existe remuneração, sim. Mas isso não significa entrada equivalente de dinheiro no seu caixa.


É por isso que insisto, nas conversas com meus clientes do setor de saúde, em separar dois conceitos que se confundem com facilidade: Resultado econômico e geração de caixa.


Uma instituição pode melhorar sua posição tributária e, ainda assim, sofrer com falta de liquidez para sustentar a operação no dia a dia.


Como funciona a participação da iniciativa privada


Dependendo da modalidade de adesão, os hospitais ou clínicas participantes precisam cumprir requisitos técnicos, operacionais e administrativos, entre eles:


  • adesão formal ao programa;

  • cumprimento das regras do Ministério da Saúde;

  • registro adequado da produção;

  • auditorias;

  • validação dos atendimentos;

  • emissão dos certificados correspondentes.


Só depois dessas etapas os créditos financeiros podem ser utilizados. Não basta produzir, é preciso produzir corretamente, registrar corretamente e cumprir todas as exigências do programa.


Onde estão as maiores oportunidades


Hospitais: especialmente para cirurgias eletivas, internações, procedimentos hospitalares, exames especializados e uso da capacidade ociosa.


Clínicas especializadas: especialidades com alta demanda reprimida podem ampliar significativamente a produção.


Centros de hemodiálise: atividade intensiva em estrutura, equipamentos e equipe especializada. O programa pode aumentar a utilização dessa capacidade instalada, mas também exige elevado capital de giro.


O maior risco não é tributário, é financeiro


Este é o ponto que menos vejo sendo discutido.


Antes de gerar qualquer crédito financeiro, seu hospital precisa pagar médicos, equipe assistencial, medicamentos, materiais, fornecedores, energia, manutenção, folha e despesas administrativas.


O caixa sai imediatamente. O benefício tributário só acontece depois (talvez meses), produção, auditoria, certificação e, então, utilização dos créditos.


Se esse intervalo não for planejado, você pode aumentar a produção do hospital e, ao mesmo tempo, comprometer sua liquidez.


Npo final, é a mesma rotina de uma plano de saúde: você presta o serviço e após meses recebe. Você financia o tratamento e recebe em crédito, não em dinheiro.


Crédito tributário não substitui capital de giro


Imagine que seu hospital gere R$ 100 mil em créditos financeiros. Isso não significa R$ 100 mil entrando na conta. O benefício acontece pela redução de obrigações tributárias, enquanto salários, fornecedores e medicamentos continuam sendo pagos em dinheiro, todos os meses.


É por isso que, antes de aderir, eu recomendo que todo gestor responda a quatro perguntas:


  • Quanto preciso desembolsar antes de utilizar os créditos?

  • Quanto tempo levo para transformar produção em benefício tributário?

  • Minha estrutura financeira suporta esse ciclo?

  • O benefício líquido supera o custo financeiro dessa operação?


Como calcular se vale a pena aderir


Antes de participar, calculo com meus clientes cinco indicadores:


1. Custo operacional completo: assistencial, administrativo, estrutura, tributos e despesas indiretas.


2. Necessidade de capital de giro: quanto fica comprometido até a utilização efetiva dos créditos.

3. Economia tributária potencial: qual a redução efetiva das obrigações permitidas pelo programa.


4. Custo financeiro do capital: se for preciso financiar a operação, qual o impacto dos juros no resultado.


5. Benefício líquido, a fórmula que realmente importa:


Benefício líquido = Economia tributária efetiva − custos assistenciais − custo do capital de giro − glosas − perdas operacionais

Só esse indicador mostra se o programa cria valor de verdade para a sua instituição.


Indicadores que eu recomendo acompanhar


Hospitais participantes precisam olhar muito além do faturamento:


  • margem de contribuição por procedimento;

  • receita líquida por atendimento;

  • índice de glosas;

  • prazo entre produção e certificação dos créditos;

  • necessidade de capital de giro;

  • liquidez corrente;

  • fluxo de caixa operacional;

  • retorno sobre o capital investido (ROIC);

  • economia tributária efetivamente realizada.


Esses indicadores mostram quanto valor está sendo criado, não apenas quanto está sendo produzido.


Antes de aderir, responda a estas perguntas


  • Minha estrutura suporta o aumento de produção?

  • Tenho caixa suficiente para financiar essa operação até os créditos serem utilizados?

  • Os créditos financeiros realmente vão reduzir tributos relevantes para o meu hospital?

  • O benefício econômico supera o custo financeiro do capital de giro?

  • Existe risco operacional elevado de glosas?

  • Essa operação fortalece minha estratégia de longo prazo?


Se alguma resposta for negativa, talvez o desafio não esteja no programa, esteja na estrutura financeira da própria instituição. E isso, com o planejamento certo, se resolve antes de assinar qualquer adesão.


Conclusão


O Agora Tem Especialistas representa uma oportunidade real para ampliar o acesso da população a serviços especializados e aumentar o uso da capacidade instalada da rede privada. Mas ele também exige um novo nível de maturidade na gestão financeira do seu hospital.


Pela primeira vez, muitos gestores vão analisar contratos cuja remuneração pode acontecer não só por depósito em conta, mas pela redução de obrigações tributárias.


Isso exige mudança de mentalidade: benefício tributário não é sinônimo de caixa.

Hospitais financeiramente sólidos não decidem olhando só para o faturamento. Eles analisam margem, fluxo de caixa, capital de giro, liquidez e retorno sobre o capital investido.


No fim, a pergunta certa não é "quanto o SUS vai pagar?". É: quanto desse benefício realmente fortalece a sustentabilidade financeira da sua instituição?


Porque, no setor de saúde, crescer sem preservar caixa pode transformar uma boa oportunidade em um problema grande.



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